O "Livro de Aço - Heróis e Heroínas do Brasil" é uma obra que reúne o nome de brasileiros e brasileiras ilustres, considerados heróis e heroínas por suas contribuições significativas para o país.
Após conhecer a história desse Candidato a Herói da Pátria, não perca a oportunidade de visitar Símbolos Municipais e conhecer o brasão, a bandeira e o hino dos 5.571 munícipios brasileiros.
Assim como foram em outros tempos os Quilombos e as irmandades religiosas, as escolas de samba se constituíram como estratégia de sobrevivência de descendentes de africanos escravizados. Não à toa, os principais núcleos de irradiação do samba no Rio de Janeiro se formaram concomitantemente a um violento processo de segregação, quando, no começo do século XX, grandes contingentes de negros pobres foram expulsos do centro da cidade. As reformas urbanas do Prefeito Pereira Passos, um projeto abertamente francófilo, higienista e excludente, forçaram esses grupos a ocupar os morros e o entorno das paradas da estrada de ferro, constituindo as favelas e os subúrbios da cidade.
Dessa forma, as Escolas de Samba representam resistência no sentido mais essencial do
termo. São espaços de socialização, ajuda mútua, lazer e expressão cultural de várias
comunidades formadas a partir de resistentes, de sobreviventes da exclusão, da indiferença
e do racismo. E, mais importante de tudo, elas constituem um espaço de preservação e
divulgação de saberes e práticas culturais de descendentes de africanos escravizados na
Diáspora. Elas são a afirmação viva e concreta da resistência e da identidade de um
território. E é de um desses territórios, resistentes, aquilombados e representativos de uma
herança cultural afro-brasileira, que vem o herói da pátria que apresentamos aqui. Esse
lugar surgiu a partir de ex-escravos oriundos das fazendas do interior do estado do Rio de
Janeiro e de comunidades expulsas do Centro da capital pela reforma urbana para a região
em torno da estação ferroviária de Rio das Pedras. A iniciativa formou, na zona norte da
cidade do Rio de Janeiro, o bairro que, posteriormente, veio a ser conhecido como Oswaldo
Cruz.
A região formada por Oswaldo Cruz e pelos bairros vizinhos, como Madureira, hoje constitui
um pujante centro econômico, cujo comércio popular recebe visitantes de toda a cidade,
principalmente nas lojas de atacado e de artigos religiosos. O tradicional Mercadão de
Madureira é referência nesse tipo de comércio, sendo fácil encontrar quem cruze a cidade
inteira em busca da diversidade e dos preços atrativos encontrados em suas lojas. Cortada
por duas linhas de trem que dão acesso ao Centro da cidade, a localidade já é parte
indissociável da cultura do Rio de Janeiro, tão célebre quanto muitos bairros ditos nobres da
cidade.
Essa localidade também é berço da centenária escola de samba Portela, histórica
agremiação carnavalesca, reconhecida por sua trajetória de resistência e pela sua rica
produção artística. Ao lado de Antônio Caetano e Antônio Rufino dos Reis, Paulo fundou o
bloco Baianinhas de Oswaldo Cruz, que mais tarde se tornaria o grande e imponente
Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela. O historiador, escritor e compositor Nei
Lopes, profundo conhecedor do universo do samba carioca e da cultura afro-brasileira, nos
dá ideia do quão importante é essa conexão entre as escolas de samba e seus territórios.
Em seu Dicionário da Hinterlândia Carioca, no verbete sobre Oswaldo Cruz, ele faz questão de mencionar a Portela como a sua “mais importante expressão cultural”. Longe de ser um
exagero, tal afirmação reflete o grau de importância da escola na vida da região em que ela
está inserida.
O primeiro grande líder da agremiação também foi uma importante liderança comunitária da
localidade. Nascido em 1901, ele foi um dos muitos negros obrigados a deixar a região
central do Rio de Janeiro rumo ao subúrbio depois das reformas urbanas. Seu nome era
Paulo Benjamin de Oliveira, mas ficou eternizado como Paulo da Portela, o que, por si só, já
dá uma boa ideia de seu envolvimento umbilical com a escola que ajudou a fundar.
Além de compositor inspirado, Paulo foi um batalhador incansável pelo reconhecimento das manifestações culturais de sua comunidade como legítimas e respeitáveis. Ele inclusive
negociou, junto ao poder público, o aval para as festas e apresentações carnavalescas da
Portela e de outras agremiações, constituindo-se uma liderança reconhecida por todo o
mundo do samba. O líder portelense empenhou-se pessoalmente no sentido de afastar os
estigmas que sempre rondaram as manifestações culturais populares, como a feiúra e a
marginalidade, incentivando os sambistas a se vestirem e se portarem com elegância e altivez. Era conhecido o seu lema segundo o qual sambistas deviam estar com “pés e pescoços ocupados”, o que se traduzia no cuidado em usar gravatas e bons calçados. Um esforço consciente em distanciar-se dos pés descalços que caracterizavam os negros
escravizados.
O esforço em construir uma reputação respeitável para essa manifestação foi levado à cabo
também dentro de sua própria comunidade. Paulo ia pessoalmente às casas das famílias da
região pedir autorização dos pais para que as moças pudessem participar da festa,
comprometendo-se a trazê-las de volta em segurança.
A herança deixada pela atuação comunitária de Paulo vive até hoje. Viver e circular pela
localidade formada por Oswaldo Cruz, Madureira e outros bairros é testemunhar
cotidianamente a centralidade da escola de samba na vida comunitária. É topar com o
legado de Paulo da Portela em cada esquina. É vivenciar, de forma concreta, conceitos
aparentemente abstratos, como resistência e aquilombamento. Tudo isso está lá, visível nas
mais variadas manifestações culturais do povo preto, que encontraram naquela região
terreno fértil para crescer e se popularizar.
Além de fundar uma instituição fundamental para a cultura deste país, que é a GRES
Portela, e ajudar a consolidar uma manifestação cultural da magnitude do desfile das
escolas, Paulo da Portela ainda ajudou a divulgar a música brasileira mundialmente.
Durante a visita de Walt Disney ao Brasil, em 1942, ele o ciceroneou em rodas de samba, o
que inspirou a criação do imortal personagem Zé Carioca.
Paulo Benjamin de Oliveira foi um grande compositor e um líder da maior importância para
sua comunidade e para as comunidades afrodescendentes do Rio de Janeiro. Um dos
maiores defensores e divulgadores de uma manifestação cultural que é reconhecida mundo
afora como a arte essencialmente brasileira, proporcionando cultura, lazer, emprego,
renda, vivência comunitária e reconhecimento para milhões de pessoas até hoje. Paulo da
Portela foi um lutador do samba, da cultura e do povo pobre e preto deste país. Um herói da
pátria.
“...E no ABC dos Orixás
Oranian é Paulo da Portela
Um mundo azul e branco
O deus negro fez nascer
Paulo Benjamim de Oliveira
Fez este mundo crescer...”
Trecho de Contos de Areia, enredo do samba apresentado pela escola Portela, em 1984, de autoria de Dedé da Portela e Norival Reis.
Paulo Benjamin de Oliveira é candidato a Herói da Pátria Brasileira, conforme o Projeto de Lei 2.533/2023, que propõe a inclusão de seu nome no "Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria", também conhecido como "Livro de Aço". Esse livro está localizado no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, na Praça dos Três Poderes, em Brasília, Distrito Federal, e tem como objetivo homenagear brasileiros e brasileiras que contribuíram de forma notável para a história do país.
Registro atualizado em 03/05/2026 11:21, visualizado 116 vezes.